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  4. Junho

Alunos da rede municipal participam de aula online com estudantes da Ucrânia abrigados em túnel de metrô

Professor da EMEF Érico Cavinato promoveu conversa intermediada simultaneamente por colega ucraniana refugiada na França

Atualizada dia

A realização de aulas com mais de uma turma em diferentes endereços ao mesmo tempo e o professor em outro ponto já deixou de ser novidade na rede municipal de ensino de Caxias do Sul desde que a pandemia de Covid-19 mudou o mundo. Também não é estranho aos professores de idiomas do quadro da Secretaria Municipal de Educação (SMED) conectar-se pela internet com colegas de outros países – em geral, os falantes de língua inglesa ou espanhola – para que os estudantes de ambos os lados possam experimentar o aprendizado na prática. Mas na Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Érico Cavinato, do bairro Cidade Nova, as coisas foram um pouquinho mais longe.

No início de maio, o professor de Língua Inglesa Lucas Morandi, por meio de uma plataforma específica dedicada à conexão global de pessoas para o ensino e aprendizado de idiomas, teve a iniciativa de procurar algum colega de ofício disposto a compartilhar a atividade. Do outro lado, quem respondeu foi Alina, encarregada da mesma disciplina em uma escola pública em Kharkiv, cidade de aproximadamente 1,5 milhão de habitantes no noroeste da Ucrânia. Quando os arranjos estavam feitos para a realização da aula, a Rússia invadiu o país. E Morandi perdeu contato com Alina.

Cerca de 20 dias depois, o servidor da SMED conseguiu restabelecer diálogo com a colega ucraniana. Apenas para descobrir que agora, cerca de 70% de Kharkiv fora destruída e Alina já estava refugiada com a família na França. Mesmo com a situação caótica, ambos decidiram manter o que haviam planejado. E assim, três turmas de oitavo ano da Érico Cavinato tiveram a oportunidade de conversar, via online, com jovens da mesma idade, em situação de guerra. Quando surgiram na tela diante da garotada do Cidade Nova, os estudantes ucranianos, na mesma faixa etária de 12 a 14 anos, estavam abrigados em um túnel de metrô.

“Toda estrutura da escola, as classes, as cadeiras, tudo, estava montado no subterrâneo, onde eles se protegem dos bombardeios”, relata Morandi.

Uma enxurrada de perguntas se seguiu, entre brasileiros e ucranianos. Os mais extrovertidos se arriscaram a pegar o microfone e falar diretamente com os estrangeiros, do outro lado do aplicativo de chamadas. Com a internet precária, nem todos os participantes de Kharkiv conseguiram manter as câmeras ligadas durante todo o tempo, mas insistiram em seguir apenas com o áudio.

“Os nossos estudantes manifestaram muita curiosidade sobre a alimentação de lá, sobre a destruição da cidade e, claro, como é muito importante para eles, queriam saber se a internet estava funcionando bem. E os de lá queriam saber se apoiávamos algum dos países na guerra e também perguntaram sobre futebol, claro. As turmas daqui também perguntaram bastante sobre a vida na guerra e ficaram muito impressionadas quando o pessoal de lá contou que ouvem as sirenes da cidade alertando para os bombardeios e têm de procurar abrigo”, descreve Morandi.

De acordo com o professor, a atividade foi um sucesso – em ambos os países. “Eles adoraram”, revela. Entre as turmas da Érico Cavinato, o interesse por mais informações, especialmente de aspectos culturais e do próprio noticiário, envolvendo a Ucrânia disparou. A ponto de ganhar expansão para outra disciplina: o território eslavo foi examinado em detalhes nos mapas trabalhados nas aulas de Geografia. Na avaliação de Morandi, contudo, o maior aprendizado oferecido pela experiência vai muito além das grades curriculares.

“Eles tiveram uma aula de empatia. Ouviram todos os relatos em silêncio. E viram como a atitude deles ajudou a dar um ânimo para os colegas de outro país que estão passando por um momento difícil e puderam descontrair um pouco. Conhecer a realidade de estudantes como eles em meio a uma guerra serviu para colocar a própria vida em perspectiva. Eles puderam ver como, muitas vezes, o que consideramos um grande problema está longe de ser uma situação realmente ruim”, conclui o professor.

Imagens: acervo pessoal

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